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CHAPÉU DO CAFEICULTOR

Olhei atentamente
Pro chapéu na minha frente.
Chapéu velho do meu marido.
Acabanado, diferente do que foi adquirido.

Veja a forma que ganhou,
o que foi que o transformou:
mais escuro da poeira e uns fios que o emaranha
pelo percurso que faz, atrapalha as aranhas.

Muitas vezes de longe
no cafezal dá pra ver
um chapéu correndo sem parada,
com barulho de motor substituindo a escada.

Cobre um italiano descente,
que ainda sonha e tem esperança.
Herdou dos pais ser persistente
quem planta e colhe, com fé alcança.

Homem forte trabalhador
com muitas horas extras pra receber.
Só sendo do Criador,
pois se esperar do café, nem paga seu labor.

Se mando esse chapéu
pra analisar, um perito
ficará um tanto assustado
e achará muito esquisito.

Mas que produto é este
que ganhou durante o dia
faltou da noite o sereno
faltou brilho de estrela, mas revela ter veneno.

E o senhor perito
sentiu aperto e deu um grito,
do resultado que se apura,
o que dirá da criatura?

Diz seu dono :” O chapéu sai ganhando.
Não faz conta do que gasta, no banco não entra.
Eu tenho sentimento, no peito, um coração pulsando.
Se não for forte, os solavancos não agüenta”.

De poeira, suor, sol e chuva,
este ganhou essa estrutura.
O formando ganha beca e capelo
O cafeicultor pequeno, este chapéu de formatura.

Aparecida Bérgamo


INCÓGNITA

Nada sei,
Nada sou,
Nada posso,
Nada possuo.
No entanto, existo.
Por isto, é preciso ser.
É preciso viver,
É preciso fazer, mesmo errando,
É preciso aprender sempre.
Não sei de onde venho, nem para onde vou,
Mas é preciso prosseguir.
A vida é um eterno aprendizado, uma construção sem fim.

 

Giovane Peixoto Diniz


SER

Viver é tão grandioso quanto todas as epopéias,
E tão sagrado quanto todas as religiões.
É o mais extraordinário de todos os acontecimentos.
Por isto, quero o melhor para mim,
Assim como para todas as pessoas
E todos os seres.

A explosão criadora do universo
Ocorre em todos os momentos e lugares,
Em cada célula e átomo.

Quero a paz e a força do infinito,
Mas quero igualmente a transcendência ante o espaço e o tempo.

Quero ser integralmente.

 

Giovane Peixoto Diniz   


O POLÍTICO E O POETA

A arte da política e a arte da poesia
Duas artes tão diferentes, almejando simetria
O poeta e político, com suas palavras cheias de história
Buscam achar o ponto perfeito entre a humildade e a glória.

Poeta e político carregam no peito um mesmo brasão
Na tentativa de partir e somar idéias diferentes
Na tentativa de explicar como se parte um coração

Dizem coisas que eles mesmos não sentem
Escondem a linha entre a loucura e a razão
Deixam para trás o que não vale uma boa discussão

E as pequenas diferenças entre um e outro
Se confundem, faz reluzir o que não é ouro

Assim o político se faz poeta, de promessas abre mão
Arrisca rimas, refaz o que já foi feito, explica o óbvio
E, num ecoar de vozes silenciosas, de efeito ópio
Muda o jeito que vemos a vida, mundo-cão

E agora,o poeta se passando por político, com direito,
De histórias tristes e de compaixão, cria atalho
Dizendo que também já pisou neste mesmo cascalho
E tráz para o seu lado mais um novo amigo do peito.

E embora pareça que cada um segue diferente direção,
Ambos continuam a escolher cuidadosamente cada travessão
Na esperança que ante o ponto de interrogação
A sua próxima rima não seja tão óbvia quanto: perdão!

Hernane Alvarenga


AO BRANCO

O fio da vida, aquele, curto, como um pavio
Que queima, ardente, de parecer intermitente
É o mesmo, veja que ironia, o que desmancha
Que parte, murcha, descama, perde força, míngua

Esvai-se pelos cantos, aos poucos, sem ser notado
Como a vida de muitos, como a de um amor derrotado
Que perde a hora, que demora, que atrasa, mas chega ao fim
Que não perde uma batalha, mas abandona a guerra.

Triste não é o fim de tudo aquilo que termina, mas
Daquilo que fica, d’aquele que ainda sente, que mente
Pra si, pra dentro, que aquece a alma enquanto a noite esfria
Que deixa a vida de lado enquanto tenta não ver acabar o dia.

Trsite é a tristeza de não sentir mais nada, de se perder
Sem saber que está perdido, como viver-se iludido
De tudo aquilo que se cerca, de tudo que continua,
Que ainda flutua, nas horas paradas e nas palavras mudas

O tempo e a ferrugem são amigos, companheiros,
E também inimigos e traiçoeiros, homem e cão
Um que anda, outro que olha o chão, destinados a seguirem
Passo a passo, atados, sem saber que vão à mesma direção

Ao fim, ao branco, ao começo quem sabe, quem quer saber?
E mais um dia termina, mais um tom de cinza ganha espaço no papel
Que guardam todas as nossas cores, prontas a desbotar
Desde o primeiro dia que estivemos a pintar.

Hernane Alvarenga 


A PRESENÇA

A presença, a lembrança... o olhar...
Tocar, abraçar, aconchegar...
Envolver, conter, enternecer...
Cobertores, almofadas, agasalhos...
Chás, leite quente com bolachas...
Xaropes, pomadas e... verduras...
Uniformes, pentes e escovas de dente...
Biscoitos, doces e o bolo de fubá...
Missas e vistas ao cemitério...
Novenas... preces...fé...
A presença, a lembrança... o olhar...
Aniversários, presentes, amigos...
O colo, o carinho... o ralhar...
A cor do batom...
O cheiro do creme da Avon...
A preocupação, as cartas, as mesadas...
Os passeios, as visitas... as amizades...
O Natal sempre especial...
As viagens... a viagem...
As dores... as lágrimas...
A saudade...
A presença... a lembrança... o olhar...

José Limonti Jr.


A PONTE

A ponte é um traço
Que corta o espaço
E faz o abraço
De pedra e de aço,
De esquadro e de compasso
E leva a união...

Sobre a ponte passa o boi, passa a boiada,
Passa o trilho, passa a estrada,
Passa a noite enluarada,
Passa a dama e a mulherada,
Passa a tarde e a madrugada,
Passa o carro e o caminhão...

Passa a procissão comprida,
O lamento da viola sentida,
A alma de saudade ferida,
As lagrimas de tod’uma vida,
Passa a novilhada parida,
Passa alegria, passa emoção...

Passa o bandido que é escória,
Passa o soldado que é vitória,
Passa o cortejo que é de glória,]
Passa o livro que é memória,
Passa o caipira que é história,
Passa o peito e o coração...

Na nossa ponte tudo passa,
Passa o fogo e a fumaça,
A alegria e a desgraça,
Passa o caçador e a caça,
O copo, o cálice e a taça,
Passa tudo em profusão...

Espero nesta ponte um dia,
Cansado de longa porfia,
Passar lento, em hora tardia,
Orando à Virgem Maria,
Em espírito, à procura de um guia,
Buscando a Eterna Mansão...

José Limonti Junior


DEUS

Deus, onde estás?

Se olho não te vejo
Te procuro não te encontro
Te chamo não me respondes
Te grito não me ouves.

Por que afastas de mim?
Eu que tanto te quero sim.
Te busco dias e noites
Desde que acordo e deito estou pensando em Ti.

Tu não me sais do pensamento
Numa espera de todo momento
Meu corpo ansioso clama
Que venhas a mim com Tua chama.

Sinto-me vazia, angustiada descrente
Minha mente está toda dormente
Deito-me no chão e arrasto-me no pó
Chorando, gemendo, sentindo-me tão só.

Tua luz não me ilumina, não me aquece
Parece-me que não sou Tua pois de mim esqueces

Fica tudo amargo, frio e triste
Somente minha esperança em Ti não se desvanece

Sei que um dia Senhor irei Te encontrar
E neste dia Senhor, eu em Ti irei me completar!

Lucilia Oneida Andrade Falleiros


O CORAÇÃO

Ah! Se o coração da gente
Pudesse dizer tudo que o vê e sente
Saberíamos de coisas bonitas e tristes
De muitas paixões ardentes.

O coração é um pedaço de carne
Mas uma carne bem diferente
Pensava-se antigamente
Que o amor morava no coração da gente.

Hoje, a ciência tão avançada
Já não se pensa como outrora,
O coração de agora
Apenas marca o ritmo do sangue que ele controla.

Então eu fico a procurar
Onde está? Onde fica o amor?
Procuro por todo meu corpo não o encontro,
Só encontro tristeza e muita dor.

Oh! Como seria bom
Se ao invés de só controlar o sangue
O coração fosse o baú do amor.
Nele eu me esconderia pra acabar com minhas tristezas
Meu desamor e essa saudade de um lindo amor.

Lucília Oneida Andrade Falleiros


FUGINDO P’RA GOIÁS

Bico chato,
Tem o pato,
Sete vidas,
Tem o gato.

Quem duvida,
É São Tomé,
Quem avisa,
Amigo é:
“-Privacidade,
Não se empresta,
Liberdade,
Não se aluga,
Se o perigo,
Está por perto,
Pra longe,
Parta em fuga.-“

Quem acredita,
vive em paz,
quem duvida,
pouco faz.
O prudente,
Sai na frente,
O incauto,
Nunca mais,
Que ,
Ibiraci,
Tem água boa,
Mas sossego,
Tem Goiás,
Fui!-

Jacintho Honório Silva


FUGA

Do cão foge o gato,
Do gato foge o rato
Escapa sorrateiro
Quem por perto vê o chato.

O Espírito compõe;
Escrever é só um ato,
O diabo foge à Cruz,
O tratante foge ao trato.

Partida,
Lembra fuga
Persistência,
O seu inverso,
O romancista,
Conta em prosa,
Quem faz rima,
Conta em verso.

E se essa é a verdade,
Do começo
Além do fim,
Com este verso,
Resumido,
Uma vida
Eu canto assim.

Da mão foge a muleta,
Do joelho o emplasto,
Do pé foge a botina,
Na areia fica o rasto.

Jacintho Honório Silva


AMIGOS

Tem-se amigos, na vida,
De tudo quanto é jeito:
Tem o amigo da onça
Tem o amigo do peito;
Tem o amigo enrolado
Tem o amigo direito;
O particípio passado
Tem o mais que perfeito.

Tem o amigo que é caro
Tem o amigo de graça;
Amigo de igreja e de fé
Amigo de bar e cachaça;
Amigo que passa o tempo
Amigo que o tempo não passa;
Amigo que desata os nós,
E o que dá nós em fumaça.

Amigos tem-se na vida,
De tudo quanto é jeito.
E ouça bem o que digo:
Ao encontrar um amigo
Não observe os defeitos
Defeitos todos nós temos
E isto é que nos faz perfeitos.

Manoel Hermógenes Filho


CODINOME: AMOR

Fruto de raro sabor:
Flor de eterna candura,
Nascente de água pura,
Sol de terno calor;

Luz de tantos encantos
Brisa leve, matutina,
Que vira som de acalantos
Sempre, quando a tarde termina:

Primeiro beijo
Segunda paixão
Goiabada com queijo
Mel com mamão.

Regaço de todas as horas
P’ra o que se cansou de andar
Todas as Nossas Senhoras
Que Roberto lembrou de cantar

É isto, isto é tudo o que és
Obra prima do GRANDE ESCULTOR
Perfeição da cabeça aos pés
És Mãe, Codinome: Amor.

Manoel Hermógenes Filho


MANHÃ LIVRE

No pensativo café da manhã
Raios de sol entrando pela janela
Só... pensei na estrada.
A seta guia, indicou Ibiraci!
Andei com o vento...
Andei nas montanhas...
Observei as pedras.
Cheguei e gostei!
Na animada feira livre
Muita alegria ao redor!
Lazer de um lado
Comércio de outro.
Neste ponto de encontro
Com cheirinho do pão...
Aquele de queijo!
E uma boa conversa!
Acontece...
Que dia feliz!
Meus amigos são novos...
Mas são amigos.
A conversa foi boa...
Mas quero mais!
Brilha! Sol...

Marcos Faleiros


NOSSAS ESTAÇÕES

Viver é uma graça!
Se choramos
Sorrimos também...
Se corremos
Nem sempre alcançamos...
Se almejamos o todo
Recebemos a parte...
Se lutamos
Participamos...
Passam verões
Vem e vão invernos...
A vitória existe
Mesmo com dificuldades.
No comportamento
Está a diferença...
Vitória ou fracasso
São caminhos próximos...
A primavera florece!
Ver o seu colorido
A sua beleza...
É  uma visão pessoal
Uma disposição...
A vida é um belo jardim!
E ainda oferece o outono...

Marcos Faleiros


O VÔO DO PICA-PAU

Apesar de bem menino,
Até hoje ainda me lembro
Da morte do vô “Telengo”,
Numa tarde de domingo.

Assistíamos o futebol
Quando veio o preto Homero
E sem mais lero-lero
Deu a notícia fatal

Hoje tendo conhecimento,
Para mim é um alento
Saber, que de forma natural,

Após tantos janeiros
Libertou-se do cativeiro.
Voou... o primeiro “Pica-Pau”.

Paulo Andrade Filho


RIBEIRÃO DO OURO

Não mais as águas límpas
A debaterem nos arbustos
Que sombreavam seu leito
Onde brincavam lambaris
Ouvindo os tristes cururus.

Não mais as águas limpas
Onde o menino pescava
Corria por suas areias
Nadava nos seus tanques
E o temia nas torrentes.

Não mais as águas limpas
Que cobriam o escorrega
De pedras lisas e lodosas
Que o menino deslizava
Feliz na abstração da vida.

Não mais as águas limpas
Hoje são garças esparsas
Bicando águas impuras
Ávidas de um alimento
Buscando-o sem cessar.

Combalido corre ainda
Nada mais que um regato
Para atender ao grande rio
Que sequioso o aguarda
Pra encetarem nova sorte.

Pérsio Carvalho


MEU PAI

Lembro-o
Ostentando, sempre,
Uma gravata,
E em suas magras mãos
Um guarda-chuva puído.

Infante, tempos carentes,
Navegou sobre livros,
Sem escola;
Fez-se um autodidata
Que a vida o premiou.

Repassou, orgulhoso,
O aprendizado,
Em meio rústico, rural,
Sem ostentação
Na proposta altaneira
De seu ofício.

Na civilidade que integrou,
Participou cortês, amigo,
Que lhe fluía espontâneo,
Como homem honesto,
digno, sem fronteiras.

A prole enorme
O abençoava e o abençoa
Pelo pai cuidadoso,
Esposo extremoso,
Que carregava, na sua pobreza,
A riqueza do ser humilde.

Pérsio Carvalho


MEU EGO

Meu ego que eu tanto quero
Não é de fato tão paciente,
Faço dele um grande amigo
Mesmo porque é bem exigente.

Com as ocorrências da vida
Parece-me até bem estressado,
Como tudo tem algo de bom
O convívio mostra esse lado.

Mesmo assim tão ranzinza
De maldade nada ele tem,
Revela ser um tanto feliz
Ajudando o ego de alguém.

Cercado por tantos amigos
Sente-se deveras contente,
Unidos que sempre estão
Aqui se fazem presentes.

A união e nossa amizade
Comigo eu sempre carrego,
Além de ser aquele prazer
Enriquece e alegra meu ego.  

Ruy de Lima


MENÇÃO DE GRATIDÃO

Por ser de fato um homem sensato,
Devemos dizer com todo respeito
Que consideramos ser de direito
Mencionar o valor de teus atos.

Beneficiados que somos na vida,
Nós do grupo da terceira idade,
Pretendemos prestar homenagens
À administração de nossa cidade.

Iluminada por uma luz divina
A nossa tão criteriosa gestão,
Idealizou entre tantas coisas,
O doce lazer ao carente ancião.

Se a gestão teve tanta visão,
Teve também o dom da bondade,
Proporcionando a todos idosos,
Muita diversão união e amizade.

Obrigado nosso prendado prefeito,
Por tudo que já fez e tem feito.
Obrigado “Ismael Silva Cândido”,
Por ser um filho de nossa Ibiraci
E usar o carisma provindo de ti.

Ruy de Lima
“Pelo grupo da terceira idade” nov/2007


NUNCA

A maior das charadas
Foi a grande viagem
Sem aviso e sem volta

Imaginar os dias
Vazios de conselhos e abrigo

Quase tinha certeza
Que você estava escondido
E que, em algum momento,
Na rua ou na televisão,
Eu iria te avistar

Quase sentia sua voz forte...
Quase corria para esperar...

Mas você nunca chegou...

Nunca mais vestiu aquelas roupas
Ou tocou aquela música

Nunca mais me pegou no colo
Ou fez perguntas sem respostas

Nunca mais pintou quadros
Ou me desafiou a sair da caverna

Nunca mais...

Shirley Machado de Oliveira


TESTE DE POETA

Se quer saber se é poeta
É só fazer um barquinho de papel
E esperar a chuva

Quando ela vier
Coloque o barquinho de papel na enxurrada
E me conte o que vê

Se vê o barquinho de papel
Indo embora na enxurrada
Então não é poeta

Se vê o barquinho e pensa
Quanto de chuva precisa
Para que ele naufrague
Talvez seja cientista

Mas se não vê o barco
E sim a arte deslizando...

Se vê o cheiro da chuva
E respira um gosto molhado...

Então é poeta
E aí, pode revelar
O discurso escondido
Nas simplicidades.

Shirley Machado de Oliveira