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“Rute no Campo de Boaz”, gravura em madeira de The Bible in Pictures, Leipzig, 1860, de Julius Schonorr Von Carolsfeld ( 1794-1874).

                                         
                                                            
                                                          HISTÓRIA ( Cáp. I )

 

                                                                Mitos e mistérios

            Na Arábia medieval e, mais tarde, na Europa do séc. XVII, as histórias e lendas eram abundantes.

            Milho queimado ou caldo negro

             Os que possuíam uma mente fértil e uma inclinação pela história seguiram o grão até às histórias do Antigo Testamento, alegando que este era o mesmo “milho queimado” que Abigail deu à David e Boaz à Rute.
Muitos estavam convencidos de que era o “caldo negro” dos Lacedemônios, como eram chamados os Espartanos.
Petrus de Valle, um conhecido viajante italiano, acreditava que o café remontava à guerra de Tróia, sugerindo que a “bela Helena e outras damas da corte de Príamo afogavam por vezes o pensamento das calamidades que ela lançara sobre sua família e país numa vasilha de café”.
Outros pensavam que na Odisséia de Homero, a substância chamada “nephentes”, que Helena misturava com vinho e que “bania a tristeza e a ira do coração”, era café.
               O mito mais conhecido: E continuou contando a ubíqua fábula das cabras dançarinas, na qual, um pastor, árabe ou etíope, se queixou ao imã de mosteiro vizinho que o seu rebanho, “duas ou três vezes por semana, não só ficava acordado toda a noite como a passava pulando e dançando de uma maneira invulgar”. O imã concluindo que os animais tivessem comido algo que lhes estivesse a provocar tais reações foi ao pasto onde estes dançavam. Encontrou lá umas bagas que cresciam em arbustos e decidiu experimentá-las.       
Tendo fervido as bagas em água e bebido o preparado resultante, o imã descobriu que podia     ficar acordado toda a noite. “Impôs o seu uso diário aos seus monges, fato que, impedindo-os de dormir, fazia com que cumprissem as devoções que eram obrigados a fazer à noite com maior prontidão e convicção, continuando a mantê-los em perfeita saúde; e assim, passou a ser pretendido em todo o reino”.

 

            A ODISSÉIA DA ÁFRICA

                    A planta do café foi da Etiópia para a Arábia, algures entre 575 e 850. Como lá chegou não é claro, embora uma hipótese refira que as sementes poderão ter sido levadas por gente das tribos africanas, quando migraram para norte, do Quênia e da Etiópia para a Península Arábica. Acabaram por serem repelidos pelas lanças dos persas, mas deixaram atrás de si cafeeiros, crescendo na região que é hoje o Iêmen.

            Mitos e lendas

                    Outra possibilidade é que os mercadores de escravos árabes tivessem comprado as sementes no regresso das suas incursões pela Etiópia ou, mais provável, que a responsabilidade tenha cabido aos Sufis – uma seita mística islâmica, conhecida pelos seus “dervixes dançarinos”. A literatura clássica árabe confirma-o, sugerindo que foi um grão mestre sufi, Ali bem Omar Al Shadili, que levou as sementes de café para a Arábia. Al Shadili viveu uns tempos na Etiópia, antes de fundar um mosteiro no porto iemenita de Mocha (Al Mukha). Dado que, mais tarde, se tornou conhecido como o santo de Mocha, Al Shadili parece ser o mesmo lendário Omar que descobriu as bagas de café enquanto esteve exilado no deserto, embora as histórias não encaixem muito bem.
Desejando partilhar estes benefícios com os seus dervixes, o mufti deu-lhes café antes de se entregarem às suas orações noturnas e descobriu que também eles conseguiam desempenhar “todos os seus exercícios religiosos com grande alacridade e liberdade de espírito”.

Beduíno preparando café segundo os métodos árabes tradicionais.

  Quaisquer que tivessem sido a rota e as circunstâncias há evidências sólidas de que os primeiros cafezais cultivados cresciam em jardins de mosteiros no Iêmen, concordando a maioria das autoridades árabes que a comunidade sufi foi, de algum modo, responsável.

 

 

            Da comida à bebida

                     Os comentários dos primeiros exploradores e botânicos europeus indicam que os etíopes mastigavam grãos de café não torrados, obviamente por apreciarem os seus efeitos estimulantes. Também pisavam bagas de café maduras, misturavam-nas com gordura animal e moldavam a pasta resultante em bolinhas. Este poderoso cocktail de gordura, cafeína e proteína animal era uma fonte vital de energia concentrada, particularmente valiosa em época de conflitos tribais, em que se exigia aos guerreiros que dessem tudo por tudo. As bagas também eram comidas como fruto maduro, pois sua polpa é doce e contém cafeína.

Gênesis 25:29
- “Tinha Jacó feito um cozinhado de lentilhas vermelhas, quando esmoecido, veio do campo Esaú...”

 

                     Registros antigos mostram ainda que se fazia um vinho a partir do sumo fermentado das bagas maduras. Esse vinho chamava-se qahwah, que significa “aquele que excita e faz elevar os espíritos”, termo que acabou por ser usado tanto para o vinho como para o café. Uma vez que o vinho fora proibido por Maomé, o café foi alcunhado de “vinho das arábias”.
Parece também possível que o café foi usado como alimento na Arábia e só mais tarde misturado com a água para fazer uma bebida. A primeira versão desta bebida foi, provavelmente, um líquido produzido macerando alguns grãos com pergaminho em água fria. Mais tarde, esses grãos foram torrados em fogueiras e depois fervidos em água, durante cerca de 30 minutos, até obter um líquido amarelo-claro.
Por volta do ano 1000, a bebida era ainda uma decocção relativamente grosseira, feita com grãos verdes e os seus pergaminhos. Provavelmente, foi apenas por volta do século XIII que se começou a secar os grãos antes de os usar; eram postos ao sol e, uma vez secos, podiam aguardar-se por longos períodos. Depois disso, foi um pequeno passo até os torrar sobre um fogo de carvão.

 

MANUAL ENCICLOPÉDICO DO CAFÉ
MARY BANKS
CHRISTINE McFADDEN           CATHERINE ATKINSON

Hugo Wolff Sanches de Oliveira – Produtor de Café – Mestre de Torra - Provador

 

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