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Capítulo 3

            A MIGRAÇÃO DA ÁRVORE

                       
No final do século XVI começaram a chegar à Europa vindos do Médio Oriente relatos de viajantes e botânicos sobre uma nova e estranha planta e bebida. À medida que estes relatos aumentavam em número e frequência os mercadores europeus começaram a aperceber-se da potencialidade desta nova mercadoria. Já envolvidos no comércio com o Médio Oriente, os venezianos foram rápidos a explorar esta oportunidade e as primeiras sacas de grãos de café chegaram a Veneza, vindas de Meca, nos primeiros anos do século XVII.

 

                                                           
Uma das primeiras ilustrações sobre a planta do café retirada do livro Viagem  na Arábia Feliz, publicado em Veneza em 1721.

            O monopólio árabe
Fornecer café aos venezianos foi o início de um lucrativo negócio de exportação para os Árabes, guardado ciosamente durante quase um século. Eram feitas grandes diligências para se ter a certeza de que nenhum grão capaz de germinar deixasse o país: os grãos eram fervidos ou secos e os visitantes mantidos bem longe dos cafezais.

            Empreendimento holandês
Um mercador holandês, mais ou menos na mesma época em que os venezianos receberam sua primeira remessa de grãos, conseguiu roubar um pé de café em Mocha e levá-lo intacto para a Europa.


Mapa do Iêmen retirado do mesmo livro Viagem  na Arábia Feliz.

 Em meados do século XVII dera-se início as tentativas de cultivo na colônia holandesa de Java, e, por volta de 1690 tinha-se desenvolvido plantações em Sumatra, Timor, Bali, Célebes e, em grande escala, em Ceilão, atual Siri Lanka.

            O berçário universal do café
Em 1706 plantadores de Java enviaram sua primeira colheita de grãos e um pé de café que foi cuidadosamente transplantado ao Jardim Botânico de Amsterdã. Esta remessa, embora pequena,viria a desempenhar um papel crucial nos anais do comércio de café. O Dr. James Douglas cientista do século XVIII considerou estas plantas como as antecessoras dos cafezais do Ocidente e chamou o Jardim Botânico de Amsterdã “o berço universal do café”.

            A árvore para o rei
Em 1714, o prefeito de Amsterdã presenteou o rei da França, Luís XIV com um sadio pé de café com cerca de 1,5 m de altura. Os franceses tinham prestado grande atenção ao êxito comercial dos holandeses e foi plantada no Jardim dês Plantes onde fora propositadamente construída uma estufa e confiada aos cuidados do botânico real. “A Árvore”, como ficou conhecida a espécime de Amsterdã, tornou-se a antepassada da maior parte dos cafezais presentes na América Central e do Sul.


Capitão de Clieu

 

 

            O cultivo no Novo Mundo
Gabriel Mathieu de Clieu fez-se ao mar com sua preciosa carga rumo à ilha de Martinica. Enfrentaram tempestades, piratas, um tripulante que tentou arrancar os pés e, por fim, o navio viu-se privado de ventos nos últimos dias. De Clieu partilhou a sua parca ração com a preciosa planta. Milagrosamente, ambos sobreviveram e a planta foi transportada para o jardim do oficial. Guardada pelas forças das armas, De Clieu teve sua primeira colheita em 1726. Cinqüenta anos depois havia perto de dezenove milhões de pés de cafés.

Cronologia da expansão geográfica do arábica, difundido no mundo no século XVIII, e do robusta, no final do século XIX.              

 

ESTABELECIMENTO DAS PLANTAÇÕES
Inicialmente a França era o principal fornecedor de café da Europa. Os franceses levaram a planta da Martinica para as ilhas de Guadalupe e de São Domingos (Haiti) e, a partir de 1730, o seu cultivo espalhou-se rapidamente pelas Antilhas francesas.
Entretanto, a produção desenvolvera-se em um grande número de outros países. Os espanhóis levaram-na para Porto Rico, Cuba e mais tarde para Colômbia, Venezuela e para oeste das Filipinas. Da Guiana holandesa (Suriname), o cultivo estendeu-se à Guiana francesa, de onde, em 1727, os portugueses introduziram-na no Brasil.
Em 1730 os ingleses introduziram o café na Jamaica, onde se produzem até hoje os conceituados grãos Blue Mountain.


Ilhas do Caribe, com a indicação das áreas de produção cafeeira.

 Por volta de 1830 as colônias holandesas de Java e Sumatra eram as principais fornecedoras de café para a Europa. Com o financiamento dos britânicos, a Índia e o Ceilão tentaram competir, mas não conseguiram afastar os holandeses. Em meados do século XIX um míldio do café chamado Hemileia vastratrix assolou toda a Ásia e aniquilou as provisões, dando ao Brasil a oportunidade há muito esperada. Em poucos anos o Brasil tinha se tornado o maior produtor mundial de café, posição que ainda hoje detém.

            O derradeiro estádio da jornada
Mais ou menos eqüidistantes, entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, os holandeses, franceses, ingleses, espanhóis e portugueses tinham conseguido estabelecer plantações prósperas em todos os seus territórios dentro desta zona.


Legenda: O café cresce em terras africanas, asiáticas e americanas, na faixa compreendida entre os dois trópicos, onde substitui parcialmente as florestas de montanha originais, localizadas a altitudes entre 1.000 e 3.500m e excepcionalmente até 50m em certas ilhas equatoriais.

 A última fase da jornada do café teve lugar no início do século XX na África Oriental alemã, hoje Quênia e a Tanzânia, ironicamente apenas a algumas centenas de quilômetros do berço original do café, a Etiópia. O café completa a sua viagem de circum-navegação de nove séculos pelo mundo.

 

 

Hugo Wolff Sanches de Oliveira – produtor e classificador.

Fontes:
Texto: Manual Enciclopédico Do Café de Mary Banks, Christine Mcfadden e Catherine Atkinson
Figuras: O CAFÉ Ambientes e Diversidades de Fulvio Eccardi e Vicenzo Sandalj

 

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